
AREIAS CONTAMINADASFoto: Carlos - @myphantomtoy
Areias entre as raízes históricas e a expansão industrial
Povoado de Camaçari, marcado pela ocupação tradicional e pela relação com os recursos naturais, convive desde a década de 1970 com a presença de uma fábrica de dióxido de titânio e questionamentos sobre possíveis impactos ambientais na região.
Por Mavi Nunes
Esta reportagem chega a um povoado discreto de Camaçari, na Bahia: Areias. Conhecido por seu polo industrial, o município tem uma história de ocupação que remonta a séculos anteriores à instalação das fábricas. Muito antes de as chaminés industriais transformarem a paisagem, a região já era habitada por povos originários, entre eles os Tupinambá. Séculos depois, em 29 de maio de 1558, a mesma região foi palco da atuação dos jesuítas, que fundaram a aldeia do Divino Espírito Santo, uma das primeiras do Brasil, com o objetivo de catequizar os indígenas. Na faixa litorânea, consolidou-se um modo de vida ligado à pesca, à agricultura familiar e ao uso dos recursos naturais.
Hoje, o povoado integra o distrito de Vila de Abrantes, que reúne cerca de 26,5% da população de Camaçari e abrange localidades como Arembepe, Jauá e Busca Vida. Às margens da BA-099, a Estrada do Coco, e nas proximidades de Arembepe, Areias se desenvolveu como uma comunidade tradicional. Sua localização a mantém distante da sede municipal, onde vivem 62% dos habitantes e se concentra parte importante do comércio, e das áreas turísticas de Monte Gordo, como Praia do Forte e Guarajuba, que, segundo os dados utilizados nesta reportagem, reúnem 11,5% da população.
Ao longo das décadas, a distância dos principais centros urbanos contribuiu para o isolamento da comunidade. O acesso limitado e as dificuldades de mobilidade tornaram recorrente a luta por serviços essenciais, como atendimento médico especializado e transporte regular. A invisibilidade também aparece nos dados estatísticos: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não disponibiliza, nas informações consideradas nesta reportagem, dados demográficos específicos que permitam quantificar isoladamente os moradores de Areias. A comunidade aparece inserida nas estatísticas mais abrangentes de Camaçari e do distrito de Vila de Abrantes. Nesse contexto, os moradores preservam sua identidade cultural e mantêm formas tradicionais de subsistência, historicamente ligadas ao solo, aos poços e ao Rio Capivara.
A expansão industrial chegou à região no início da década de 1970. Em 1971, a Tibrás, primeira fábrica de pigmento de dióxido de titânio (TiO₂) do Brasil, iniciou suas atividades nas proximidades da comunidade, sete anos antes da inauguração do Polo Industrial de Camaçari, em 1978. O complexo industrial se consolidaria como um dos principais centros produtivos do país, associado à promessa de desenvolvimento econômico e modernização tecnológica. Para os moradores de Areias, porém, a expansão industrial também passou a representar uma convivência próxima com as atividades fabris e suas possíveis consequências ambientais. Ao longo desse processo, surgiram denúncias e questionamentos sobre a qualidade do solo, da água e do ar na região, além das condições ambientais do Rio Capivara. É nesse contexto que se desenvolve esta reportagem.
Onde fica Areias
A comunidade de Areias e a fábrica da Tronox, lado a lado, no litoral de Camaçari.

Fonte: Google Maps. Imagem fornecida para a reportagem.
Abrir mapa realTronox Pigmentos do Brasil S.A.: a empresa
Fundada em 25 de janeiro de 1966, inicialmente sob o nome Cristal Pigmentos do Brasil, a empresa instalou sua fábrica em Camaçari, onde a produção começou em 1971, sob a denominação Tibrás. A unidade foi a primeira fábrica de dióxido de titânio do país e, atualmente, integra as operações da Tronox, grupo internacional do setor de mineração e produção de pigmentos. A planta baiana é apresentada pela companhia como a única unidade integrada de produção de TiO₂ da América do Sul. O composto, um pó branco de elevado valor comercial, é utilizado para conferir opacidade e brilho a produtos como tintas, plásticos, papéis e cosméticos. Além de trabalhar com matérias-primas como a ilmenita, a empresa atua no segmento de minerais como zirconita, rutilo e cianita.
A Tronox se apresenta como uma das principais produtoras mundiais de dióxido de titânio, com operações verticalmente integradas. Segundo as informações institucionais da companhia, sua estrutura internacional inclui sete fábricas de pigmentos, seis minas de areias minerais e cinco unidades de beneficiamento. A empresa mantém operações ou escritórios em diferentes países, entre eles África do Sul, Arábia Saudita, Austrália, Brasil, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Países Baixos, Reino Unido e Singapura. Suas ações são negociadas na Bolsa de Valores de Nova York sob o código TROX. No Brasil, a companhia mantém a fábrica de Camaçari e um escritório comercial em São Paulo, responsável pelo atendimento a clientes da América Latina.
Por trás da produção do pigmento está uma cadeia industrial que exige atenção aos impactos ambientais. Uma das principais matérias-primas utilizadas é a ilmenita, mineral composto por ferro, titânio e oxigênio. De acordo com informações da própria empresa, a unidade baiana está instalada em uma área de aproximadamente 837 hectares, às margens da BA-099, e utiliza o processo sulfato para produzir dióxido de titânio. Nesse método, o minério é tratado com ácido sulfúrico para extrair o composto de interesse, em uma operação que gera resíduos e efluentes cujo manejo exige controle rigoroso.
Dependendo de sua composição e das condições de armazenamento e tratamento, esses resíduos podem representar riscos ao ambiente. Falhas na contenção ou no gerenciamento de substâncias potencialmente contaminantes podem favorecer a infiltração de poluentes no solo e sua chegada às águas subterrâneas, utilizadas historicamente por moradores de Areias. Por isso, a operação da fábrica e as renovações de sua licença ambiental pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) integram o contexto das discussões sobre os impactos ambientais na região. Denúncias de contaminação e questionamentos sobre o controle das emissões atmosféricas e a destinação dos resíduos motivam a necessidade de fiscalização e de estudos técnicos capazes de avaliar as condições ambientais da área e os possíveis riscos à população.
Reportagem baseada em dados demográficos do IBGE, informações institucionais da Tronox e documentos de licenciamento ambiental do INEMA.