AREIAS CONTAMINADASFoto: Flávio C. de Almeida
Anatomia de uma contaminação silenciosa
Moradores relatam mudanças na água, no rio e na vegetação de Areias, em Camaçari. Laudos técnicos registram alterações ambientais e apontam que a eficácia das medidas de contenção ainda não foi comprovada.

Por Felipe Cerqueira
A água que mudou
Antes de deixar de usar a cisterna, Irenilda Santos passou anos recorrendo à água que tinha em casa. Moradora de Areias, em Camaçari, há mais de quatro décadas, ela se lembra de um tempo em que a família plantava, colhia frutas e utilizava a água subterrânea nas atividades do dia a dia. Com o passar dos anos, porém, diz ter percebido mudanças na água e na produção das plantas.
A lembrança não é apenas sobre o que deixou de existir. É também sobre a relação que os moradores construíram com o lugar onde vivem e sobre as dúvidas que surgiram quando aquilo que fazia parte da rotina começou a parecer diferente.
Irenilda conta que a superfície da água de uma das cisternas passou a apresentar uma película estranha, que ela descreve como algo “parecendo um tipo de ácido”. Segundo a moradora, poços precisaram ser fechados e algumas famílias deixaram de utilizar a água.

Irenilda Santos
Irenilda deixou de usar a água da cisterna da propriedade depois de notar mudanças na superfície e no cheiro da água que a família consumia há décadas.
Foto: Fernanda Perez
A aparência, sozinha, não permite identificar a composição da água nem confirmar a presença de contaminantes. Mas o relato de Irenilda encontra um ponto de contato nos documentos técnicos que investigam a área. Análises ambientais realizadas ao longo dos anos registraram alterações na qualidade das águas subterrâneas de Areias.
Carlos Cardoso também guarda lembranças da água que encontrou quando comprou um sítio próximo de Arembepe, em 1994. Ele conta que a água da cisterna era amarela, mas que, mesmo assim, chegou a consumi-la. O terreno fica nas proximidades da Lagoa Azul, em uma área de proteção ambiental.
O maior crime da empresa foi justamente não alertar as pessoas que não deveriam beber água de cisterna.
Carlos Cardoso · Morador de Areias
Em 2007, ele procurou um advogado para tratar do que considera um problema de poluição na região. Desde então, acompanha o caso e afirma que o processo se arrasta há anos.
As histórias de Carlos e Irenilda são diferentes, mas se encontram na mesma pergunta. O que aconteceu com a água que abastecia parte das casas de Areias?
Para responder, é preciso ir além da cor, do cheiro ou da aparência. É necessário observar os resultados das análises, a extensão das alterações registradas e a capacidade das medidas adotadas para impedir que os contaminantes continuem se deslocando pelo ambiente.
Relatos de moradores
Depoimentos em vídeo
O que os documentos revelam
O histórico técnico do caso reúne registros de alterações ambientais desde pelo menos 2005. Um estudo daquele ano, citado pelo Centro de Apoio Técnico (CEAT) do Ministério Público da Bahia (MPBA), apontou o depósito de rejeitos industriais nas dunas da área de influência da fábrica da Tronox.
REJEITOS DEPOSITADOS
NAS DUNAS DA ÁREA DE INFLUÊNCIA
ESTUDO 2005 · CEAT/MPBA
COMPOSIÇÃO DOS MATERIAIS
pH · ÁCIDO SULFÚRICO FORMADO
EXTREMAMENTE ÁCIDO
Segundo o estudo, a água da chuva favoreceu o transporte dessas substâncias pelo solo, em direção ao lençol freático e aos corpos d'água. O documento também registrou a formação de ácido sulfúrico e o desaparecimento da comunidade biológica nos ecossistemas estudados.
Em 2012, o Parecer Técnico nº 82/2012 do CEAT identificou concentrações de sulfatos e metais acima dos limites de referência previstos na Resolução Conama nº 396/2008 em amostras de águas subterrâneas.
METAIS ACIMA DO LIMITE · ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
PARECER TÉCNICO 82/2012 · CEAT/MPBA · CONAMA 396/2008
O parecer concluiu que as águas subterrâneas analisadas eram impróprias para o consumo humano. Também levantou dúvidas sobre a capacidade da barreira hidráulica de impedir a migração dos contaminantes. O sistema utiliza poços de bombeamento para retirar água subterrânea e tentar conter o deslocamento das substâncias.
Naquele mesmo ano, foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no âmbito do inquérito civil nº 25/2009, com medidas relacionadas ao caso.
Mais de uma década depois, as dúvidas sobre a contenção permaneciam. Em 31 de outubro de 2024, o CEAT emitiu o Parecer Técnico nº 557/2024, solicitado pelo promotor de Justiça Luciano Pitta, da 5ª Promotoria de Justiça de Camaçari.
O documento informou que não foi possível comprovar a eficácia da cava, estrutura destinada ao confinamento dos rejeitos, nem da barreira hidráulica. Também apontou a ausência, nos registros consultados, de um relatório de gerenciamento da área contaminada e de documentos necessários para comprovar o cumprimento de condicionantes da licença ambiental. O parecer classificou a situação como uma “lacuna crítica de informação”.
A existência de estruturas de contenção, portanto, não encerra a questão. O ponto central é saber se elas conseguem impedir que os contaminantes alcancem outras áreas e se os resultados do monitoramento são suficientes para demonstrar essa eficácia.
Os próprios dados de acompanhamento ambiental ajudam a dimensionar o problema. Nos monitoramentos das lagoas e do rio Capivara realizados pela empresa entre 2018 e 2022, foram registrados valores acima dos limites previstos na Resolução Conama nº 357/2005. Em algumas amostras, os parâmetros extrapolaram os limites de referência.
pH · ÁGUAS SUPERFICIAIS
FORA DA FAIXA · CONAMA 357/2005
AMOSTRA · 2018–2022
SULFATO
LIMITE · CONAMA 357/2005
FERRO
REFERÊNCIA · CONAMA 357/2005
ALUMÍNIO
ACIMA DO LIMITE DE REFERÊNCIA
2018
MANGANÊS
ACIMA DO LIMITE DE REFERÊNCIA
2018–2022
TAMANHO DO EXTRAPOLAMENTO
O ferro medido ultrapassou em 58 vezes o parâmetro de referência; o sulfato, 3,8 vezes o limite legal.
A documentação também registra violações dos parâmetros de cromo total, níquel e chumbo em amostras de água subterrânea coletadas entre 2014 e 2016.
A empresa informou, em seus relatórios, que utiliza medidas de remediação, incluindo atenuação natural e barreiras hidráulicas. Também declarou ter identificado redução nas concentrações de 68 compostos monitorados. O CEAT, porém, ressaltou que a adoção dessas medidas não é suficiente para comprovar sua eficácia.
Os documentos mostram alterações em amostras específicas, coletadas em determinados períodos e locais. Eles não permitem afirmar que toda a água ou todo o solo de Areias estejam contaminados. Para estabelecer a extensão do problema, são necessárias análises que representem as diferentes áreas e condições ambientais do bairro.
MALEFÍCIOS AMBIENTAIS DAS COMPOSIÇÕES
O que cada substância faz ao meio ambiente
Selecione uma composição para ver, em cada compartimento ambiental, o nível de impacto estimado e o efeito associado.
Ácido sulfúrico
Ácido forte e corrosivo formado a partir de resíduos da produção de TiO₂. Acidifica o ambiente e dissolve outros contaminantes, amplificando seu transporte.
ONDE FOI ENCONTRADO
pH 1,8 no estudo de 2005
IMPACTO MÁXIMO ESTIMADO: CRÍTICO
Reduz a fertilidade, acidifica o solo e inibe microrganismos decompositores.
Torna a água ácida e imprópria para consumo e para a vida aquática.
Queima raízes e folhas e impede o crescimento de plantas.
Provoca mortandade de peixes e anfíbios em águas afetadas.
Contamina organismos da base da cadeia alimentar aquática.
NOTA: Os índices de impacto são estimativas compiladas da literatura toxicológica e ambiental (OMS / ATSDR / CONAMA) e refletem a gravidade relativa em cada compartimento. Os efeitos reais dependem da dose, do meio afetado e das condições locais.
O rio que ficou nas lembranças
Para quem cresceu em Areias, o rio Capivara não é apenas uma linha nos mapas ambientais. É um lugar que faz parte das lembranças da comunidade.
Juciara de Paula conta que, quando era criança, costumava tomar banho no rio e que a água também era utilizada pela família. Manoel Tavares, que trabalhou na manutenção de bombas, recorda uma época em que as pessoas mergulhavam e bebiam a água do local.

Juciara de Paula
Juciara cresceu tomando banho no rio Capivara, água que também abastecia a casa da família. Hoje, ela e os vizinhos evitam o curso d'água que marcou a infância de quem vive em Areias.
Foto: Fernanda Perez
Hoje, Manoel resume sua percepção sobre as mudanças com uma frase curta, “O rio morreu”.
Manoel Tavares
Manoel trabalhou na manutenção das bombas que levavam água do Capivara à comunidade. Ele recorda a época em que os moradores mergulhavam e bebiam do rio.
Foto: Flávio C. de Almeida
A expressão traduz a perda que ele acredita ter presenciado, mas a avaliação da condição ambiental do rio depende de indicadores técnicos. Nesse ponto, os relatos dos moradores encontram registros nos monitoramentos que identificaram alterações no pH e concentrações elevadas de ferro entre 2020 e 2022.
Esses resultados confirmam que houve parâmetros fora dos limites de referência nas amostras analisadas. Não determinam, por si só, a origem de todos os contaminantes nem a contribuição de cada possível fonte de poluição.
Fred dos Santos, morador e representante da comunidade, chama atenção para outro fator. Segundo ele, o rio também recebe esgoto proveniente de áreas como Jauá e Vila de Abrantes. Para Fred, a poluição não pode ser compreendida sem considerar o que chega ao curso d'água de diferentes pontos.

Fred dos Santos
Fred, morador e representante da comunidade, defende que a poluição do rio seja analisada a partir de todas as fontes que chegam ao curso d'água.
Foto: Fernanda Perez
A observação reforça a necessidade de investigar as várias fontes possíveis. A presença de alterações ambientais no rio não significa que todas tenham uma única origem, e atribuir cada uma delas exige estudos capazes de identificar os contaminantes e seus caminhos.
Ainda assim, as lembranças de Juciara e Manoel revelam uma mudança importante na relação dos moradores com o rio. Um espaço que antes fazia parte do lazer e da rotina familiar passou a ser associado à preocupação com a qualidade da água.
A história do Capivara também amplia a dimensão do caso. O que está em discussão não é somente a água armazenada em cisternas, mas a circulação de substâncias pelo ambiente e a possível conexão entre águas subterrâneas, lagoas, cursos d'água e áreas de deposição de resíduos.
A terra e as plantas também contam a história
As mudanças relatadas pelos moradores não terminam na água. Em Areias, quintais, árvores frutíferas e áreas de plantio aparecem com frequência nas lembranças de quem vive na região há décadas.
Irenilda conta que a família costumava colher frutas e que, com o passar do tempo, algumas árvores deixaram de produzir como antes. Manoel também relata ter visto mangueiras e cajueiros morrerem. Juciara descreve árvores que, segundo ela, começaram a secar.
São observações feitas por quem acompanha de perto a paisagem. Para os moradores, as mudanças fazem parte de uma transformação maior do ambiente em que cresceram.
Mas identificar a causa de uma árvore seca ou de uma queda na produção agrícola exige mais do que a observação visual. A vegetação pode ser afetada por diferentes condições, como disponibilidade de água, características do solo, pragas, clima e presença de substâncias químicas.
No caso de Areias, o parecer do CEAT de 2012 menciona resultados de métodos geofísicos que indicaram possível migração de contaminantes nas proximidades da cava. Em contrapartida, um relatório apresentado pela empresa em 2015 concluiu que não havia fuga lateral da estrutura.
A documentação consultada também apresenta uma lacuna importante. Não foram encontradas análises abrangentes do solo superficial dos quintais e das áreas de plantio dos moradores. Há dados de águas subterrâneas, lagoas e do rio, mas isso não substitui uma investigação específica do solo onde as famílias cultivam plantas.
Sem essas análises, não é possível confirmar se a vegetação relatada pelos moradores foi afetada por contaminantes relacionados à atividade industrial. Também não é possível descartar a necessidade de investigar essa hipótese.
A diferença entre o que as pessoas observam e o que os documentos conseguem demonstrar não diminui a importância dos relatos. Ao contrário, mostra quais perguntas ainda precisam ser respondidas para que a comunidade tenha uma compreensão mais completa das mudanças que percebe ao seu redor.
A fumaça e o pó sobre as folhas
Em Areias, a preocupação ambiental também está presente no ar. Moradores relatam episódios de fumaça, cheiro forte e um pó semelhante a talco que, segundo eles, se deposita sobre as plantas.
Jorge Santos conta que já observou fumaça cobrindo parte da região e afirma suspeitar que algumas emissões ocorram durante a madrugada. Ele também questiona as condições de uma antiga estrutura de monitoramento que, na sua percepção, parece estar abandonada.

Foto: Carlos - @myphantomtoy
Esses relatos descrevem o que os moradores dizem observar, mas não identificam, por si só, a composição da fumaça ou a origem do material depositado nas folhas. Para isso, são necessárias medições capazes de identificar as substâncias presentes e relacioná-las às possíveis fontes emissoras.
Uma nota técnica do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), de 13 de agosto de 2026, apresenta dados do monitoramento da qualidade do ar no Polo Industrial de Camaçari em 2025. Na estação Areias, a média anual de dióxido de enxofre (SO₂) ficou abaixo do padrão anual previsto na Resolução Conama nº 506/2024.
SO₂ · MÉDIA ANUAL 2025 · ESTAÇÃO AREIAS
ABAIXO DO PADRÃO · CONAMA 506/2024
EPISÓDIOS MODERADA
EPISÓDIO RUIM
Os dados, contudo, precisam ser interpretados dentro de seus limites. A avaliação citada trata do dióxido de enxofre e não permite concluir que todas as substâncias potencialmente presentes no ar tenham sido avaliadas. Entre os documentos reunidos para esta reportagem, não foram encontradas medições específicas de partículas de dióxido de titânio na atmosfera de Areias.
Sobre a estrutura de monitoramento, o Inema informa que as medições são realizadas por meio da estação Areias II. A existência desse acompanhamento é importante, mas não responde a todas as dúvidas levantadas pela comunidade, especialmente sobre a composição do pó observado nas plantas e a origem dos episódios de fumaça relatados.
Para os moradores, a questão é também sobre a possibilidade de conhecer o ambiente em que vivem. Sem dados que permitam identificar as substâncias presentes no ar, os relatos permanecem como sinais de alerta que precisam ser investigados.
Engenheira Química
A partir do momento que esses sulfatos, esses metais, eles vão se espalhando nessa água subterrânea e o tempo vai passando, a quantidade da concentração vai aumentar, né? Vai aumentar cada vez mais. Isso vai criar o que a gente chama de pluma de contaminação.
Marina, engenheira química
Oceanólogo
Você não pode ir lá tirar uma foto e falar: “Isso aqui tá melhor ou tá pior”. Então, o monitoramento é base, é uma base lógica simples de compreender.
Francisco Barros, oceanólogo e pesquisador da UFBA
Uma contenção que ainda precisa ser comprovada
A discussão sobre a contaminação ambiental em Areias não se limita à identificação de substâncias. Ela envolve também a capacidade de acompanhar sua movimentação e demonstrar que as medidas adotadas conseguem impedir a dispersão dos contaminantes.
A licença de operação foi renovada pelo Inema por meio da Portaria nº 17.468/2018, com validade de oito anos e 21 condicionantes ambientais. No parecer de 2024, o CEAT informou que não encontrou, nos registros consultados, documentos suficientes para comprovar o cumprimento das exigências e a eficácia das estruturas de contenção.
O caso também é acompanhado pelo MPBA. Em abril de 2026, moradores de Areias, Jauá, Tucunaré e Interlagos assinaram uma carta aberta à empresa, com respaldo do Ministério Público. O documento cobra o cumprimento do TAC e das condicionantes ambientais, além de medidas como a rastreabilidade dos resíduos industriais, a elaboração de um novo modelo de dispersão atmosférica e a reavaliação da barreira hidráulica.
Os signatários afirmaram que poderiam solicitar o ajuizamento de uma ação civil pública caso as irregularidades persistissem.
As reivindicações se relacionam diretamente às lacunas apontadas nos documentos técnicos, conhecer o destino dos resíduos, entender o comportamento dos contaminantes e verificar se as estruturas instaladas estão funcionando como previsto.
Carlos diz que acompanha o caso há anos e sente falta de respostas definitivas. Para ele, a comunidade precisa saber o que aconteceu com a água e com o ambiente ao redor das casas. Irenilda também defende que os moradores recebam informações mais claras sobre as condições das cisternas e das áreas onde vivem.
Fred, por sua vez, cobra mais apoio à comunidade e considera necessário ampliar o acompanhamento das condições ambientais do bairro.
Os moradores não apresentam todas as mesmas experiências, nem conseguem determinar sozinhos a origem de cada alteração que relatam. Mas suas histórias apontam para uma preocupação comum, a falta de respostas capazes de explicar as mudanças percebidas no lugar onde vivem.
Os documentos técnicos registram alterações em amostras de água, questionam a eficácia das medidas de contenção e apontam a ausência de informações necessárias para avaliar completamente a área. Ao mesmo tempo, permanecem lacunas sobre a condição do solo superficial, a composição do material que os moradores dizem encontrar nas plantas e a origem de cada alteração observada no ambiente.
Em Areias, a contaminação não é apenas uma questão de números em relatórios. É também a dúvida de quem deixou de usar a cisterna, a lembrança de quem nadava no Capivara e a preocupação de quem observa as árvores e tenta entender por que a paisagem mudou.
A comunidade tem perguntas. Os laudos oferecem parte das respostas, mas também registram o que ainda não foi possível comprovar. Entre a água que os moradores dizem ter perdido e as medidas de contenção cuja eficácia continua sob questionamento, permanece a necessidade de investigar, monitorar e tornar públicas as informações sobre o ambiente de Areias.
Reportagem baseada em documentos técnicos do CEAT/MPBA, notas do INEMA, relatórios da empresa e entrevistas com moradores de Areias.